Publicado por: Foca | Maio 21, 2008

PARADAGAY

Falando de amor…
Por: Jaqueline Freire
21/5/2008

O espetáculo Flores Brancas conta a história de duas mulheres que se conhecem ao acaso, ficam íntimas e se apaixonam. Estrelado pelas atrizes Zeza Mota e Luciana Caruso, escrito por João Fábio Cabral e dirigido por Fabiana Carlucci e Rogério Harmitt, a peça está em cartaz no Teatro Crowne Plaza, em São Paulo, até o dia 31 de maio.

ParadaGay: Qual é o enredo da peça?

João: A peça fala sobre duas mulheres que se esbarram casualmente numa estréia de teatro. Quando Vitória, uma estudante de cinema que acabou de entrar na USP, vem pra São Paulo e resolve assistir uma peça de teatro. Nesse mesmo dia, a Luiza no teatro também. Elas se conhecem, trocam e-mail e começam a se falar através de mensagens. Nisso, nasce um encanto, uma paixão, e Luiza convida a Vitória pra jantar na casa dela.

ParadaGay: As personagens já eram bissexuais ou lésbicas. Ou essa é a primeira experiência das duas?

João: Em momento algum eu toco na orientação sexual de nenhuma porque, na verdade, a peça fala de amor, de encanto. As duas mulheres servem como pano de fundo pra essa história que poderia ser entre um homem e uma mulher, ou entre dois homens, porque o sentimento é universal.

ParadaGay: Por que você resolveu trabalhar esse tema?

João: Eu queria falar de amor. Quando eu terminei de escrever o texto, pensei que podiam ser duas mulheres, a Fabiana também achou ótimo. As meninas foram convidadas, aceitaram. E foi muito prazeroso, ver e fazer o espetáculo, de uma maneira tranqüila, simples, sem levantar bandeiras e coloca-las como diferentes.

ParadaGay: O público de Flores Brancas é mais GLS?

Fabiana: Vão heterossexuais, mas acho que pelo fato até de não existirem muitas peças com essa temática e o universo lésbico não ser explorado em teatro, a maioria do nosso público são lésbicas.

ParadaGay: Vocês, atrizes, sentiram alguma dificuldade com o tema?

Luciana: Não, em nenhum momento eu fiquei preocupada com isso. Estamos fazendo uma peça de amor. O importante é isso. A essência é se apaixonar por outra pessoa, seja ela do mesmo sexo ou não.

Zeza: Para mim foi zero problema. Porque amor é amor, de qualquer forma. Você pode amar um homem, você pode amar uma mulher, você pode amar tudo. Não interessa. Somos todos livres para amar.

ParadaGay: Como é trabalhada a linguagem da peça?

Fabiana: Desde a construção do texto, eu achei genial porque é de uma simplicidade absurda. Na verdade, é a minha opção artística, procuro me aprofundar na relação das pessoas e nessa descoberta da alma. A nossa direção, minha e do Rogério, é muito limpa, muito clean. Não tem grandes efeitos, ou grandes viradas.

ParadaGay: Vocês trabalham mais os conflitos das personagens…

Fabiana: Quando você está apaixonado você tem um cuidado muito grande com a pessoa que você está. A Luiza tem um cuidado muito grande com a Vitória porque ela não sabe que a Luiza é cineasta, bem sucedida, mas a Luiza sabe que ela é uma estudante de cinema. Então existe uma atenção dessa mulher que está recebendo essa menina em não querer se colocar como mais importante.

João: Acho que é muito legal esse cuidado que ela tem pra dizer “Eu quero a Vitória, mas eu quero de verdade”. E com a Vitória é a mesma coisa, ela não explora o fato de ser mais nova. O medo é o mesmo, só muda a idade. Vitória tem entre 17 e 20 anos e Luiza tem entre 30 e 35 anos.

ParadaGay: Existe o momento do beijo? Como ele acontece?

Luciana: É uma delícia, elas respiram conosco. Quando damos risada, elas dão risada junto. Nos beijamos e elas batem palmas.

João: O beijo é importantíssimo em qualquer relação e o interessante é que quando acontece o beijo, você sente a platéia suspirando junto. É um beijo gostoso, você se realiza. E tem muito mais para acontecer durante a peça, o beijo é apenas um pouco daquilo que vem pela frente.

ParadaGay: Vocês passaram por alguma situação de preconceito por causa do Flores Brancas? Até mesmo fora do universo profissional, família ou amigos?

Fabiana: Não, porque a peça não tem essa questão política, taxativa. Em nenhum momento levantamos qualquer bandeira. Muito pelo contrário, senão criamos um sentimento inverso também. Eu acho que tem lésbicas que vão esperam ver alguma coisa mais questionadora, acham que as personagens deviam sofrer por aquilo, porque são diferentes. Mas, isso não acontece assim.

Zeza: Algumas meninas entram na nossa comunidade do orkut depois que assistiram a peça e perguntam se as atrizes são lésbicas. Gozado, eu já fiz pobre, ninguém me perguntou se eu era pobre. E já fiz puta e ninguém me perguntou se eu era puta. Agora que eu estou fazendo lésbica e o povo vem me perguntar se eu sou lésbica? Não, eu sou uma atriz.

Luciana: Mas é que existe um outro lado também. As meninas vão assistir e eu acho que gera uma paixãozinha, o público entra um pouco na personagem e se apaixona por ela. E elas querem saber, enfim, se têm alguma chance. (risos)

ParadaGay: Até quando a peça fica em cartaz?

João: Até o dia 31 de maio, a primeira temporada. Provavelmente voltemos com a peça em junho. Queremos viajar e seria maravilhoso mostrar nosso trabalho tanto o público GLS quanto os heteros. Porque parece que quando falamos de homossexualidade, é como se existisse um mistério, uma coisa muito absurda. É preciso parar com isso, eu tenho vários amigos homossexuais e não vejo problema nenhum. Queremos que o país inteiro veja essa peça. Assistam e se amem, com liberdade, com respeito e dignidade, porque isso, para nós, é o mais importante.

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